Chega de Ética Nassif

Olá galera!!! Bom, o texto de hoje é de Diogo Mainardi e discute sobre política(um episódio com respostas ainda atravessadas na garganta), jornalismo e ética. Considero que na sociedade de hoje, com proteções indevidas, segredos, enganos e desmandos talvez seja plausível repensarmos as bases da ética. O texto é de 2005, mas, como neste país parecemos dar voltas e voltas sem que se chegue a lugar nenhum, condiz com o cenário em que nos encontramos atualmente.

Sou um conspirador. Um conspirador da elite. Quero derrubar Lula. Só não quero ter muito trabalho. Quero derrubar lula sem sair de casa. Quase deu certo na semana passada. Telefonei para o deputado José Janene. Ele reconheceu que José Dirceu comandou o esquema de compra dos deputados por parte do governo. Foi a primeira vez que um dos envolvidos nas denúncias do mensalão acusou o Palácio do Planalto de distribuir dinheiro sujo aos parlamentares. Janene pediu que eu publicasse a notícia em off, sem citá-lo. Não aceitei. Não sou padre que ouve confissão calado. Dedurei Janene, o Jornal Nacional procurou-o na segunda-feira, para confirmar o conteúdo da entrevista, Janene preferiu não se manifestar. Como não gravei nossa conversa, o assunto morreu. O maior sucesso de minha atividade como conspirador falho miseravelmente. Decidi começar a gravar meus telefonemas. Virei o Juruna da imprensa. Gravo tudo no aparelho de Karaokê de meu filho. Derrubar Lula de qualquer outra maneira seria conferir-lhe um crédito exagerado.
O deputado Janene reprovou minha atitude. Disse que quebrei o código de ética do jornalismo. Outra autoridade em matéria de ética, que se sentiu no direito de me passar um pito, foi Luis Nassif, colunista de economia da Folha de S. Paulo. Ele escreveu: “Para combater a falta de escrúpulos do governo, agora, chega-se a atropelar até valores sagrados da imprensa, como o instituto do off the Record. Em uma coluna, em revista de larga circulação, o autor se vangloria de ter passado a perna em um deputado, prometendo-lhe manter uma declaração em off e não cumprindo a promessa”. Isso foi publicado na última quinta-feira. Na quinta-feira da semana anterior, Nassif deu um perfeito exemplo de ética jornalística. Num artigo sobre Daniel Dantas, ele reproduziu palavra por palavra, sem citar o autor, uma mensagem enviada a diversos jornalistas por Luiz Roberdo Demarco. Demarco não é o que se poderia definir como uma fonte isenta. Pelo contrário: ele está processando Dantas na justiça, numa ação bilionária. Como se pode notar, Nassif é um jornalista ético, que sabe preservar suas fontes. Ele é tão cioso de sua responsabilidade que decidiu copiar até mesmo os erros de grafia da mensagem original de Demarco [...].
Além da coluna na Folha de S. Paulo, Nassif tem também um site de notícias, que foi financiado com empréstimos do BNDS. Um dos patrocinadores é o próprio BNDS, coincidentemente um dos maiores acionistas da Telemar, concorrente direta de Dantas. Não surpreende que um paladino da ética como Nassif tenha defendido a compra, por parte da Telemar, da produtora de fundo de quintal do filho de Lula, Fábio Luís. Outro importante patrocinador do site de Nassif é a Odebrcht, cujo patrocinador mereceu um panegírico apaixonado numa coluna recente.
Nassif me deu uma lição de ética. Janene me deu uma lição de ética. Lula afirmou que não existe ninguém mais ético do que ele. Eu não aceito lição dessa gente. O Brasil tem off demais. Tudo que se faz aqui é em off. Esta não é a hora do off. É a hora de abrir o jogo, de contar tudo, de falar a verdade.

MAINARDI, Diogo. Chega de ética Nassif. VEJA, são Paulo, n.33, p. 131, 17 de ago. de 2005.

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