Papo de homem - Meu amigo socialista

To virando fâ desse site. www.papodehomen.com.br
Mais um texto que roubo de lá. Seria um pecado se eu não publicasse ele aqui.


Daniel, o meu amigo Socialista



Ele aparecia vez ou outra lá em casa sem ser convidado. E caso o meu pai estivesse na sala vendo a Globo, o rapaz se prostrava em frente à TV com o punho erguido, em sinal de protesto. Ficava assim, parado, sem dizer nada.

Isso, ele ficava sentado com o punho bem assim.

Só saía de lá quando meu pai atirava o controle remoto nele.

- Ô menino chato. Vai catar um emprego, seu bosta.

Apesar de tudo, eu gostava do Daniel. O sujeito era caladão, circunspecto; praticamente um amigo imaginário.

- Daniel, vamos jogar Banco Imobiliário?

- Diversão pequeno-burguesa? Não, obrigado.

- Vamos lá. Depois eu deixo você panfletar pra minha família.

- Que venha o Banco Imobiliário.

Alguém dava conta de jogar até o final?

Trouxe o jogo. Daniel rolou o dado e começou a andar lentamente as casas.

- “Caminhando e cantando essa mesma canção…”

- Peraí, Daniel. Vai ficar fazendo passeata com o peão? Anda logo.

- “Somos todos iguais…” Parei no Brooklyn. O que eu faço aqui?

- Esse bairro é meu. Me paga 20 cruzeiros.

- Não reconheço o seu direito à propriedade.

- Vá pra porra. Me dá 20 cruzeiros.

Daniel pegou todos os peões do jogo e pôs eles em cima do tabuleiro.

- O que você está fazendo?

- Estou promovendo uma revolução armada. Seu bairro foi confiscado pela minha milícia.

- Mas você não pode fazer isso. É contra as regras do Banco Imobiliário.

- Eu sei. É que a partir de agora estamos jogando o Banco do Proletariado.

- E como isso funciona?

- Bem, você pode ir pra onde quiser. Não há turnos, ninguém precisa jogar dados e nem pagar nada pra ninguém.

- Qual o objetivo então?

- Sei lá… Vamos sair espalhando essas casinhas verdes pelo tabuleiro.
Habitações populares. As pessoas terão onde morar.

Qual era a desse sujeito? Além de confiscar o meu Brooklyn, ele agora estava emporcalhando o jogo com esses conjuntos habitacionais. Isso não podia ficar assim. Peguei o peão dele e coloquei na cadeia. Daniel era agora um preso político. Fui na cozinha e trouxe pão e água para o rapaz.

Expliquei que ele deveria viver em exílio no porão aqui de casa até as coisas se acalmarem. E ainda que resignado, Daniel aceitou sua condição, se retirando em exílio. De vez em quando ele colocava a cabeça pra fora e dava um sinal de vida.

- Ei, já faz uma semana que estou aqui. Como andam as coisas?

- A barra ainda está pesadíssima, Daniel, pesadíssima.

- Reivindico anistia!

- É mesmo? Guardas, um subversivo!

Ele então voltava assustado para o porão. E assim se passaram meses, anos. Até que ele saiu de lá, puto da vida, com uma barba imensa e um fedor de urina insuportável.

Daniel, saindo do porão alguns anos depois, ainda com a mesma roupa

- Cansei de brincar.

1 comentários:

  Thomas

2:41 PM

Plac Plac Plac (onomatopéia de palmas). Realmente muito bom!!

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